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“JORNADA DE TRABALHO É O DADO MAIS CHOCANTE”, DIZ PROFESSORA DA USP SOBRE PESQUISA

Roseli@DivulgaçãoA professora Dra. Roseli Fígaro, da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA/USP) apresentou suas considerações sobre a pesquisa apresentada no 2º Encontro de Comunicação do Alto Tietê (ECAT), no último dia 9. Roseli, que estava confirmada para compor a mesa de abertura não pôde comparecer por motivos de saúde, mas fez questão de tecer comentários sobre o trabalho realizado pela equipe organizadora do ECAT. Entre os apontamentos, ela destaca o que mais chamou a atenção dos resultados obtidos: “A jornada de trabalho é o dado que se revela mais chocante e demonstrativo do nível de exploração dos jornalistas. As horas extras são incorporadas naturalmente pelas empresas como parte da jornada de trabalho e, poucas vezes são remuneradas em acordo com o que estabelece a Lei.

Segue abaixo, na íntegra, as considerações da professora, autora de pesquisa semelhante realizada para a elaboração do livro “As mudanças no Mundo do Trabalho do jornalista”, (Atlas, 2013).

 

Quero salientar a coragem e a pertinência da proposta dos pesquisadores para conhecer melhor o campo de trabalho dos jornalistas e dos publicitários, tendo em vista o cenário de contínuas e profundas transformações pelas quais passamos no setor.

Considerando os objetivos descritos, penso que estão estabelecidos de forma clara e podem ser alcançados; se o objetivo descrito como: “identificar a situação de quem trabalha”…, fosse enunciado de outra maneira, por exemplo: identificar as situações de quem trabalha na região…., o elenco de três objetivos listados ficaria perfeito.

Considerando as justificativas, os itens destacados são bem pertinentes, merecendo, em um artigo, a análise do cenário da crise de um modo geral  ser relacionada às essas condições no campo profissional da comunicação: a mudança da planta das empresas, redução de profissionais contratados, polivalência, flexibilização, precarização do trabalho.

Considerando a metodologia, é importante incorporar e destacar que essa é uma pesquisa exploratória (GIL, 1994), ou seja, ela parte de indícios que, ao serem confirmados, abrirão espaço para outras pesquisas. Ela coleta dados por meio de amostra não probabilística, a partir de critérios de conveniência dos pesquisadores (ex. o recorte da região). Ainda na metodologia seria importante esclarecer:

  1. Como o questionário foi enviado para os profissionais, como se chegou a eles?
    Resposta: O questionário foi enviado de forma on-line por meio de formulário digital.
     
  2. Quais foram os contatos estabelecidos?
    Resposta: Os contatos estabelecidos foram, na sua maioria, on-line.
     
  3. Foram usados mailing do sindicato; dos formados pelas escolas da região; mailing das empresas de comunicação; contatos pessoais de uma rede de profissionais?
    Resposta: Foram usados mailing dos jornalistas que trabalham nos veículos de comunicação da região do Alto Tietê, mailing dos inscritos na primeira edição do ECAT e estimulado também nas redes sociais por meio de postagens e mensagem diretas nas páginas das agências de publicidade.
     
  4. Como? Quantos questionários foram enviados?
    Resposta: Como se tratou de formulário digital foram enviados dois links de questionários, de acordo com a área de atuação.
     
  5. O que significa o retorno de 108 respostas frente aos questionários enviados?
    Resposta: Significa a totalização de respostas obtidas frente aos dois questionários enviados.
     
  6. Por que profissionais (com diploma?) e estudantes?
    Resposta: Não houve a preocupação, neste caso, de investigar se os profissionais inqueridos eram diplomados ou não, embora trata-se de aspecto relevante e que pode ser observado em pesquisas futuras. A diferenciação entre profissionais e estudantes é justamente para mensurar o quantitativo de mão de obra advinda de estagiários e de profissionais efetivamente formados nas empresas da região. O recorte se mostrou útil, sobretudo, porque no caso das respostas obtidas na área de publicidade, a maioria dos entrevistados afirmou ser estudante dentro de um universo menor do que o obtido na área entre os jornalistas.

 

Esclarecidos esses aspectos, os resultados podem orientar outras pesquisas e também a ação de educadores, sindicalistas e legisladores.

Considerando os resultados, os que têm carteira assinada são, sobretudo, das assessorias de comunicação/imprensa. Essa área de trabalho é bem representativa entre os jornalistas.

A “pejotização” das formas contratuais está aumentando entre os profissionais na região.

Ainda é marcante a presença do jornalismo impresso e da assessoria de imprensa como mercado de trabalho na região, embora o trabalho em sites e em agência digital comece a aparecer.

O piso salarial enquadra-se na realidade do Estado, embora nosso questionário não permita uma visão detalhada, devido à amplitude das faixas salariais que estabelecemos.

A jornada de trabalho é o dado que se revela mais chocante e demonstrativo do nível de exploração dos jornalistas. As horas extras são incorporadas naturalmente pelas empresas como parte da jornada de trabalho e, poucas vezes são remuneradas em acordo com o que estabelece a Lei.

Quase metade dos entrevistados faz freelancer, não fica claro no quadro de resultados, se apenas os freelancer são questionados sobre emitir nota fiscal.

Com relação a benefícios do trabalho como freelancer, a maioria dos respondentes afirma nenhum benefício, mas chama atenção o dado de que, entre as respostas sobre os benefícios, destacam-se trabalhar em casa e liberdade de horário, ou seja, as questões do transporte e da gestão do tempo são valorizadas. Por outro lado, quando se pergunta sobre os recursos, a maioria absoluta diz usar seus próprios recursos: equipamentos, água, luz etc. Esse é o dado mais concreto sobre a precarização do trabalho: os recursos são do próprio trabalhador que investe parte de seu salário em equipamentos e pagamento de serviços necessários para seu desempenho. Trabalham-se muitas horas, ocupando o tempo da família e do lazer. Há aí uma contradição pouca explorada pelas lutas desses profissionais: é possível reivindicar condições para se trabalhar em casa?

A rotatividade é uma realidade. Geralmente, os profissionais ficam em torno de 2 anos em um mesmo emprego.

Há percepção das mudanças ocorridas nas empresas e que tais mudanças são devidas aos processos de racionalização do trabalho, redução de quadros, aumento do ritmo de trabalho.

Com relação ao sofrimento no trabalho, os dados são acachapantes: a insegurança e a falta de distanciamento entre vida pessoal (tempo para a família) e profissional são exemplos desses transtornos que somados ao estresse no trabalho levam o profissional a adoecer (ver as pesquisas de José Roberto Heloani sobre saúde do jornalista)

O mais sensível dos problemas que a pesquisa aponta é que embora o profissional tenha percepção da mudança, da redução de vagas, da perda de direitos, ele não enxerga o sindicato como possibilidade de organização coletiva para tentar alternativas.

Posso dizer, pela experiência com o tema e pelas minhas pesquisas, que o jornalista busca saídas individuais e dentro do enquadramento: prestador de serviço-cliente. Esse fato é bastante danoso para o jornalismo.  A concepção de negócio é o enquadramento dado ao fato reportado desde a pauta. As questões ético/políticas que embasam a prática do jornalismo e de seu compromisso com a sociedade ficam em segundo plano.

Os arranjos econômicos alternativos à grande mídia e que permitem trabalhar com o pressuposto do cidadão-leitor interessado em informação ainda são frágeis, embora numericamente venham crescendo.

Por fim, agradeço a oportunidade de conhecer os resultados da pesquisa realizada e de poder trocar experiências com vocês.

 

Referências

ECAT. Reflexões sobre a realidade da comunicação regional. Apresentação dos resultados sobre o perfil do profissional e as condições de trabalho no Alto Tietê. Disponível em : http://www.ecatoficial.com.br

 

GIL, Antonio Carlos. Métodos e técnicas de pesquisa social. 6.ed. São Paulo:Atlas, 2008.

 

HELOANI, José Roberto. Estresse de jornalista beira a exaustão. Disponível em: http://www.jornalistasp.org.br/index.php?option=com_content&task=view&id=4197&Itemid=

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